Celina Leão defende mudança econômica no DF
No Brasília Summit, Celina Leão defende integração de dados, modernização da gestão e aposta em tecnologia, economia verde e bioinsumos para reduzir a dependência histórica do serviço público no DF
Celina Leão defende inovação, integração de dados e mudança no eixo econômico do DF durante o Brasília Summit; discurso mira modernização da gestão e redução da dependência do serviço público. O discurso da governadora Celina Leão no Brasília Summit desta quarta-feira (15) recolocou no centro do debate uma questão antiga, mas cada vez mais urgente para o Distrito Federal: afinal, até quando Brasília continuará dependente quase exclusivamente da máquina pública para sustentar seu crescimento? Ao defender inovação tecnológica, integração de sistemas e mudança do eixo econômico local, a chefe do Executivo sinalizou que o governo quer vender a ideia de um DF menos amarrado ao serviço público e mais conectado a setores de maior valor agregado, como tecnologia, economia verde e bioinsumos. A fala ocorreu na abertura do 6º Brasília Summit, promovido pelo Lide em parceria com o Correio Braziliense, no Brasília Palace Hotel.
Celina afirmou que eficiência, eficácia, experiência e preparo precisam estar no centro da administração e foi além ao dizer que boa gestão deveria ser “critério mínimo” para qualquer pessoa disputar um cargo no Executivo. A declaração tem peso político porque tenta associar a imagem do governo a uma agenda de profissionalização da máquina pública, num momento em que o debate sobre entrega de serviços, digitalização e capacidade de resposta do Estado volta a ganhar força.
Na prática, a governadora mirou em um problema conhecido por quem acompanha a estrutura administrativa do DF: a fragmentação dos sistemas de governo. Segundo ela, diferentes secretarias operam com plataformas que não conversam entre si nem com o cidadão, o que compromete decisões, atrasa processos e amplia o risco de erro. Foi nesse ponto que Celina resumiu a lógica da nova agenda: gestão sem dados confiáveis tende a produzir decisões ruins. O diagnóstico não é novo, mas a fala indica que o Buriti quer transformar esse gargalo em bandeira política e administrativa.
Esse movimento ganhou forma poucos dias antes do evento, com a criação da Secretaria de Governança Digital e Integração. A nova pasta, oficializada pelo Decreto nº 48.467, passou a concentrar ações ligadas à transformação digital, integração de dados governamentais e ampliação de serviços digitais ao cidadão. Segundo o próprio governo, a meta é acabar com sobreposição de sistemas e acelerar a modernização do atendimento público. Celina chegou a afirmar que a intenção é caminhar para um governo “100% digital”, com acesso mais centralizado a informações e serviços.
Mas o ponto mais sensível do discurso foi econômico. Ao defender que Brasília precisa “mudar o eixo econômico”, a governadora tocou num dos temas mais estruturais do DF. A capital federal cresceu sob forte influência do setor público, e essa característica ajudou a moldar emprego, renda, consumo e até a lógica imobiliária local. O problema é que esse modelo, embora tenha garantido estabilidade durante décadas, também limitou a diversificação produtiva. Quando Celina fala em buscar “vocação financeira e econômica”, ela tenta reposicionar o DF como território de negócios, inovação e serviços de alto valor, e não apenas como centro administrativo da República.
A aposta em tecnologia, economia limpa, economia verde e bioinsumos aparece como parte desse reposicionamento. O foco não parece casual. Em 2026, o debate sobre indústria verde, bioeconomia e digitalização ganhou espaço no país, inclusive com iniciativas federais voltadas ao fortalecimento da bioeconomia brasileira. Ao aproximar o DF dessa linguagem, o governo tenta inserir Brasília em uma agenda contemporânea de desenvolvimento, conectada a inovação, sustentabilidade e novos mercados. O desafio, porém, é transformar conceito em resultado concreto, porque discurso de diversificação econômica, sozinho, não altera a realidade produtiva de uma capital historicamente dependente do Estado.
A fala de Celina também conversa com outra declaração feita por ela um dia antes, em debate sobre os 66 anos de Brasília, quando disse que a capital precisa pensar em desenvolvimento tecnológico e chegou a comparar esse potencial à ideia de um “Vale do Silício do Brasil”. Embora a expressão tenha forte apelo político e midiático, ela também eleva a régua da cobrança. Para que esse projeto seja levado a sério, o governo precisará apresentar mais do que intenção: terá de mostrar ambiente regulatório favorável, atração de empresas, formação de mão de obra, segurança jurídica e integração entre poder público, universidades e setor privado.
Há, portanto, um mérito no que foi apresentado no Brasília Summit: o reconhecimento de que o DF precisa parar de olhar apenas para dentro da própria burocracia. Ao mesmo tempo, há um teste inevitável de credibilidade. Brasília já ouviu, em diferentes momentos, promessas de modernização, inovação e diversificação. O que diferencia uma agenda séria de mais um pacote de intenções é a capacidade de execução. Se a nova secretaria conseguir de fato integrar dados, simplificar a relação do cidadão com o governo e criar uma base mais inteligente para decisões públicas, a gestão ganha fôlego. Se, além disso, o DF conseguir atrair setores tecnológicos e verdes de forma consistente, aí sim o discurso começará a sair do palco e entrar na economia real.
No fim das contas, a mensagem de Celina Leão no evento foi clara: o governo quer vender a imagem de um Distrito Federal menos analógico, menos fragmentado e menos dependente do contracheque estatal. É uma agenda ambiciosa, atual e politicamente bem posicionada. Mas Brasília conhece bem a distância entre anúncio e transformação. O tamanho dessa mudança não será medido pela força do discurso, e sim pela capacidade de o governo converter tecnologia em serviço melhor e diversificação em emprego, renda e competitividade.




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